Um artista de linhas sobre papel

Não me dou bem, e estou a ser generoso, com a cor naquilo que poderá constituir uma base na minha proposta artística. É com uma enorme dor, frustração, que o digo. A cor dá à obra uma experiência emotiva, subtrai ou multiplica dimensões espirituais necessárias à compreensão do artista.

No entanto, a cor vai mais de acordo com a arte abstracta, expressionismos, ou o realismo da fotografia, onde não me insiro. Curiosamente, os abstraccionismos dialogam quase sempre com a ausência de paisagens, já que do concretismo figurativo é notória, quase condição sine qua non, essa censura.

Ao passo que a cor dá à obra uma maior riqueza emotiva, transforma-a, de coisa em Ser animado, é a linha que tem o primado do pensamento e da ideia.

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Pecados x Pecados = Perdões

A pose humana perante Deus é a de espera e purga eterna. Obviamente, incluo na espera os que não acreditam – o ateísmo é só parasitário, como tal, não entra para contas – e na purga incluo os que realmente precisam Dele, como eu, por exemplo. Tudo está bem.

E Deus, tão Simples e ainda tão longe, continua a rir enquanto a malta pensa o ter morto num artigo de jornal, em livros, em escumalha criativa de toda a espécie, para além de, mais grave, numa cruz…

Ninguém parece notar, mas o tema Deus está morto? é o ponto onde o mundo continuará a torcer pelos séculos adiante desde que o ateísmo se impôs com força bruta na alma individual do moderno, incapaz, estrela cadente. A mim, o que reverbera no íntimo quando dou de frente com as ideias todas sofisticadas da malta ateísta, é simples: estupidez mórbida. Eu gostaria de acreditar mais neste tempo que me calhou viver, que não vivemos numa era de Vazios e estupidez ossificada, mas não vejo termo possível para fazer evoluir mentalidades, implantar, na zona que o crânio envolve, um farol. Continuem a cuspir, por má-fé, por ignorância, ou por ensaiar as vossas línguas e pensamento douto no fogo de onde tivestes a origem, ingratos. Continuem!

WE ARE DOOMED!

Da carne entrelaçando nas árvores

Uma vez que, do mais importante, não temos notícia que não seja, quando é, uma breve intuição, eu, por mim, desisti dessas laudatórias fúnebres aos astros da cultura. Ainda, impressiona-me, hoje em dia, melhor uma obra prolífica na música ou na minha tão romanceada pintura do que uma pessoa que escreveu quatrocentos livros. As palavras são sempre as mesmas: quadradas, cristalizam com rapidez e são incapazes de chegar ao êxtase, pelo menos àquele êxtase raro em que a Pintura e a Música tocam. O amor pela imagem e pela forma é muito superior. Também acho graça aos poetas.

Além destas minhas saturações, eu gosto bem mais dos livros de Lobo Antunes, escreve melhor e com mais efeito, e, já que o tempo dos Picasso passou, como se a história esteja a agonizar numa sopa indistinta de nomes lançados no caos, prefiro acreditar que a minha vida, mínima, tem tanto valor como quem escreveu quatrocentos livros. Daí que não faça, nem assuma, figurões de paspalho a distribuir elogios ao ego de «notáveis que se superaram»…

‘náo há leis para te prender, aconteça o que acontecer’

A obra de Raul Brandão não tem, explicitamente, um carácter interventivo, antes, perpassa em toda a obra um largo traço existencial. Num mundo repleto de almas cindidas pelo valor extemporâneo das imagens que entretém, o natural é banir dos festejos o animal que olha para dentro, problemático, indesejado, e Sonha – palavra tão brandoniana. Esta é uma crítica que se vê fazer, a propósito de tudo, a propósito de nada e para nada, mas que, no caso de Raul Brandão, faz todo o sentido que a explicitemos. Porque se acima dissemos que o carácter interventivo na obra de Brandão não é o seu êmbolo, pecamos em rigor se apontarmos todo o entusiasmo para a sua poesis – Brandão deixou uma mensagem de desespero existencial, do homem moderno às voltas da mesa levantada e fria do sem-sentido, na sua Obra, é verdade, mas também nos deu os indícios políticos para a sua difícil mudança, segundo a sua perspectiva pessoal, de contacto com o pensamento. O único personagem da sua Obra é ele mesmo; isto coloca-o par a par com personalidades como Nietzsche ou Dostoiévski, homens cujo labor literário não seria mais do que a procura, em si mesmo, de um fio que pudesse aquietar toda a tormenta de se saber indeterminado. Este sentimento estertório de vingança ridícula nasce da vergonha que se forma entre o que foram e no falhanço em que se tornaram. O Sonho colidiu com a realidade. A realidade ganhou sempre. Brandão é então o explorador deste declive, da labareda que se tornou cinza. A escrita é o último guardião de uma tentativa emocional, talvez, de pedir perdão por não se ter vivido.